Capítulo 14 — Despedidas
o décimo quarto capítulo do meu novo livro, em primeira mão :)
Nesta edição da Além da Linha, você encontra o décimo quarto capítulo do meu novo livro. Os novos capítulos são enviados semanalmente. É tipo assistir a uma série: toda semana um novo capítulo. Então, fica aqui o convite para acompanhar o livro (ainda sem título) nascer em tempo real, e ter acesso a tudo em primeira mão. Vem comigo?
Capítulo anterior
No dia anterior à minha partida, sento no terraço como sempre faço. A diferença é que hoje estou consciente de que esta é a última vez. Escrevo meia página em meu diário, sem conseguir continuar. Sou dominada pela urgência de viver aquele dia, registrar tudo com o corpo, estar ali, presente, sentindo.
Não quero perder este momento enquanto o vivo, como fiz no carro em meio à surdez de uma paisagem idílica, enquanto observava as cabras e ouvia os pneus contra as pedras de cascalho. Diferente daquele dia, nesse eu queria tentar. Tentar frear o tempo. Pedir que fizessem o mundo parar de girar só por um instante para que eu pudesse me demorar mais um pouco. Não necessariamente porque desejava ficar ali para sempre, mas porque não estava preparada para ir embora.
Voltar ao mundo real. Aquele que agora me parecia ainda mais assustador do que antes fora. Um mundo cheio de fantasmas e assombrações do passado, de possibilidades que me roubavam todas as certezas. A partir dali, eu estaria adentrando uma floresta densa, tomada por neblina, mais uma vez sozinha. Não podia enxergar um palmo à minha frente. Iria tatear, esperando que encontrasse uma clareira, em vez de uma armadilha. Esperava que a partir dali as coisas fossem diferentes do que haviam sido antes dali. Melhores.
Olho com ternura para Hans, sentado no chão à minha frente, assistindo a algo em seu tablet. Percebo o quanto sentirei saudades daquilo. Daquelas almofadas vermelhas, do parapeito branco contra o horizonte e o mar, ambos azul celeste. De fechar os olhos e sentir a aspereza do tapete berbere sob mim, a brisa brincando com os pelinhos dos meus braços, o calor do sol intenso que me tomava dos pés à cabeça. De abrir os olhos e encontrar um rosto conhecido, de quem eu poderia pedir um abraço, um carinho, um afago.
As mudanças mais difíceis são aquelas que precisamos fazer, mas não desejamos. Aquelas que nos obrigam a sair do lugar quando as coisas estão boas do jeito que estão. Coincidentemente, é só neste momento que nos damos conta do quanto as coisas eram boas. Quando elas estão prestes a desaparecer. Quando, talvez, você se dá conta de que precisa pedir para alguém fazer o mundo parar de girar só por um instante.
Esse era um desses momentos.
Red tirou a tarde de folga para passar tempo comigo. Nos encontramos na porta de entrada do coworking, e ele me perguntou o que eu queria fazer. Indecisa, não soube responder. Pedi que ele decidisse. Eu não estava acostumada a estar no controle, tomar as decisões, dizer o que queria. Sempre disse o que os outros esperavam que dissesse. Ninguém nunca perguntou o que eu desejava. Mas ele insistiu. Disse que sua vontade era de que aquele dia fosse especial para mim.
Reuni forças, pensei por alguns segundos e disse que gostaria de caminhar pela praia e que talvez gostaria de comer um crepe de chocolate. E assim fizemos. Red me conduziu até o melhor crepe que conhecia. Até lá, caminhamos pela praia, nossos corpos o mais próximo possível um do outro, ainda sem arriscar transgressão alguma. Ele estava ali, tão presente. Ainda mais do que sempre esteve. Ou era eu quem estava? Red me fazia perguntas, se aproximava, às vezes parecia querer me tocar, deixando a mão pairar no ar a meio caminho, como uma promessa que nunca se concretizava.
Sentamos na areia da praia lado a lado e observamos o mar tranquilo enquanto comíamos nossos crepes. As ondas suaves, mal quebravam, fazendo a água parecer vidro. Ele riu enquanto limpava um pedaço de chocolate do meu queixo, dando um beijo rápido em minha boca e perguntando se eu queria entrar no mar.



