Capítulo 2 — O fim
o segundo capítulo do meu novo livro, em primeira mão :)
Nesta edição da Além da Linha, você encontra o segundo capítulo do meu novo livro. A partir de agora, os capítulos serão enviados semanalmente. Vai ser tipo assistir uma série: toda semana um novo capítulo. Esse é um convite para acompanhar o livro (ainda sem título) nascer em tempo real, e ter acesso a tudo em primeira mão. Vem comigo?
Leia primeiro
Com o mochilão de 10kg nas costas e a mochila pequena, também pesando 10kg, na frente, descemos o finger o mais apressadamente que conseguimos. Cada um carregando vinte quilos agarrados ao corpo. Caminhamos, quase correndo, até chegar perto da porta do avião, onde cinco passageiros ainda esperam ter suas passagens checadas. Olho para trás e ele está logo ali. Esboço um sorriso, ele esboça outro. Conseguimos. Não trocamos palavra alguma.
Encontramos nossos assentos. Colocamos as mochilas grandes, que carregavam todas as nossas roupas, no compartimento de cima, com algum esforço. Talvez pesassem mais de 10kg, afinal. Nos acomodamos nas poltronas 24A e 24B e colocamos as mochilas pequenas, com nossos laptops, câmeras e outros equipamentos eletrônicos, embaixo do assento à frente. Em silêncio.
Tiro uma foto rápida da janela do avião com o celular e posto nos stories do Instagram. “Próximo destino. Para onde agora?”, diz o único texto que sobrepõe a imagem. Alcanço os fones de ouvido e deixo a playlist do Spotify aberta, aquela que começa com Plastic 100°C, de Sampha. Ainda não dou play. Fecho os olhos e respiro fundo. Uma, duas, três vezes.
O avião rumo a Tel Aviv começa a se mover e, em seguida, avança pela pista. Cada vez mais rápido, até sentirmos o peso da gravidade puxando-nos para trás e para baixo, colando nossos corpos à cadeira reclinável. Mas nós não nos importamos, nem sentimos medo. Já estávamos acostumados à sensação.
Uma vez no ar, mexo na tela acoplada à poltrona à minha frente, checando o catálogo com os últimos lançamentos: A Star Is Born, Bohemian Rhapsody, Mamma Mia! Here We Go Again, Deadpool 2… Olho para o lado e pergunto: “Quer assistir Friends?”
Ele concorda. Abrimos o mesmo episódio, colocamos os fones de ouvido e coordenamos o momento de dar play. Exatamente como fazíamos quando começamos a namorar e vivíamos em cidades diferentes. Eu no meu quarto, ele no dele. Há 50 km de distância. Há quase dez anos. Em outra vida.
Devo admitir que nos saímos muito bem para dois jecas, na casa dos 20, vindos do interior de Santa Catarina. Ou, ao menos, era o que parecia.
A 30 mil pés de altura, tínhamos a vida perfeita.
Desde o início dos meus 20, passei anos tentando me encontrar entre novos trabalhos e planos. Eu me movia, mas não necessariamente avançava. Mudava de um emprego ao outro, empreendia, e depois largava tudo. Fazia isso assim que descobria que aquilo que tinha escolhido — ser televendedora, fotógrafa de casamentos, fotógrafa de bebês, professora de inglês, analista administrativo, diretora de conteúdo — não me dava o que desejava. Ainda não sabia bem o que desejava — mas já tinha uma longa lista do que não queria. O que já pode ser considerado um bom começo.
Minha inquietação vinha da busca por um modelo de trabalho que servisse à minha vida: que me desse liberdade, flexibilidade e não me obrigasse a esperar a aposentadoria para, enfim, viver.
Foi nessa busca que eu e meu parceiro descobrimos algo ainda pouco comum na época: o trabalho remoto. E, com ele, a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar do mundo.
Por alguns anos, no entanto, nada aconteceu de fato. Continuávamos com empregos ruins e mal pagos, agora casados, vivendo numa cidade pequena do interior de Santa Catarina, e precisávamos construir algo diferente para tornar o sonho de trabalhar viajando o mundo viável. Até que, em determinado momento, reunimos forças, dinheiro e coragem para buscar aquilo que esperávamos encontrar na vida nômade — seja lá o que fosse.
Com pouca maturidade e muito esforço, construímos a vida dos sonhos, que Latronico tão bem definiu em As perfeições. Tínhamos apenas 25 e 27 anos de idade, eu e ele, quando tomamos a decisão de partir — mesmo que temporariamente. Viajamos o mundo por alguns anos, vivendo um pouco no Brasil, onde tínhamos o conforto de um apartamento só nosso, e um pouco lá fora, onde nos aventurávamos em apartamentos alheios e quartos de hotel. O mundo era nosso parque de diversões. Fomos da Patagônia à Coreia do Sul. Trabalhamos de um bar pé na areia em Tulum enquanto bebíamos margaritas, ou de uma cafeteria superfaturada em Nova Iorque num dia chuvoso.
Juntos, descobrimos um mundo até então impossível para nós. Caminhamos por geleiras na Argentina, nos hospedamos com um casal coreano que nos servia noodles apimentados pela manhã em Seul, noivamos debaixo de uma ponte no Central Park, ouvimos os cânticos dos monges no Doi Suthep antes de o sol nascer, visitamos praias paradisíacas em Púglia, nadamos em meio a planctons brilhantes perto de Koh Phi Phi, assistimos ao show do The XX em Londres.
Também tivemos dias difíceis: trabalhamos de uma casa com a porta arrebentada na Tailândia, procuramos internet em El Chaltén para entregar um prazo apertado, gritamos (eu gritei) com uma host italiana por ter nos enganado, fizemos mímica para um taxista às três da manhã em Seul tentando chegar ao aeroporto. Nessas horas nos desentendíamos, é claro. Mas nada apagava o brilho em nossos olhos a cada nova viagem.
A 30 mil pés de altura, tínhamos a vida perfeita.
Ou ao menos era o que parecia.
Foi só depois de certo tempo que aquilo que a euforia desmedida encobria começou a se revelar. A vida com que sonhamos por tantos anos revelava-se, afinal, uma vida real. Acompanhada de todas as complicações que uma vida real carrega. Cheia de rachaduras que elucidavam outras e mais outras. Como um novelo que se desenrola no puxar da linha, revelando uma extensão gigantesca o suficiente para envolver e dar cabo de uma vida inteira.
E ao perceber os sinais, se é que percebemos, mantivemos o silêncio. Algo que fazíamos tão bem. Agimos como sempre, como se tudo estivesse perfeito, como se nada estivesse acontecendo. Porque não estava. E era esse o problema. A falta. Da presença. Do diálogo. De nós.
O silêncio, devagar, instalou-se entre as rachaduras feito erva daninha que cresce no concreto. O não dito corroeu, pouco a pouco, tudo aquilo que havíamos construído.
Levou junto consigo todos os bons anos. As noites jogando sinuca depois da faculdade no bar da Tita, os fins de semana em frente a TV assistindo Netflix e pausando, quando o barulho do trem que passava ao lado do nosso apartamento se tornava alto demais, os passeios de bicicleta nas areias duras da praia de Jaguaruna — só possíveis depois que ele me ensinou a andar em uma — , as noites jogando mexe mexe com meus pais, enquanto bebíamos cachaça de jabuticaba em frente ao fogão a lenha.
A vida, por um lado, era mais fácil quando podíamos culpar tudo aquilo que deixamos para trás pelos nossos problemas. Tínhamos inimigos em comum para lutar contra. Problemas fora, que não éramos nós. Mas, quando só sobramos ele e eu, foi inevitável.
O afastamento gradual — talvez presente há anos — foi tomando espaço. Primeiro como um vazio difícil de nomear. Depois, como uma rachadura silenciosa em uma placa tectônica. O desalinhamento progressivo que, aos poucos, provocaria terremotos e tsunamis.
O silêncio foi tomando tudo, por inteiro, até se tornar insuportável demais para que pudéssemos varrê-lo para debaixo do tapete da sala de estar. Aquele que nunca chegamos a comprar.
Olho para trás tentando fazer sentido daqueles meses, daquele último ano. Tento colocar os eventos em uma espécie de linha cronológica, para entender onde estava o início do fim.
Lembro de, certa noite, caminharmos por quase vinte minutos, de um ponto ao outro, sob as árvores exuberantes que cercam o Rio Tibre, sem dizer uma única palavra. Não porque havíamos brigado, mas simplesmente porque não havia nada a ser dito. Será que foi ali que começou? Será que aquele foi o ponto em que já não era possível voltar — antes mesmo de sabermos?
Ou foi quando percebemos que já não éramos os mesmos? Mas, quando foi isso? Quando é que havíamos caminhado por tempo demais em direções opostas, calados, sem notar que o outro já tinha tomado outro caminho? Ou simplesmente fincado os pés, resignando-se a continuar?
Lembro das incontáveis vezes em que tentamos encontrar lógica onde não havia. Buscamos racionalizar aquilo que sentíamos, sem sucesso. Era algo que apenas podia ser sentido, sem uma demarcação fixa. Não era tão simples quanto apontar o dia em que começamos a namorar, ou aquele em que trocamos votos de “felizes para sempre” debaixo de uma árvore, fantasiados de marido e mulher, em meio às nossas famílias exultantes. O fim não tinha começo.
E talvez por isso, pensássemos que aquilo tudo poderia ser salvo. Porque ainda não havia acabado. Precisávamos tentar.
Então, tem início uma das partes mais desgastantes de qualquer término. Vocês — ou um de vocês — vai à terapia. Começam as tentativas, as conversas, os choros, as brigas. Vocês dizem coisas das quais se arrependem. Gritam um com o outro, pela primeira vez em dez anos. Sentem-se magoados. Culpam-se. Choram mais um pouco.
E repetem.
Lembro de nos prometermos coisas. De não cumprirmos. Que íamos tentar fazer diferente. Ter mais atenção. Falar sobre o que incomoda. Não deixar a louça suja na pia. Passar pano no chão. Jantar juntos. Segurar as mãos.
E assim passam-se semanas. E depois meses. De tentar, e tentar, e tentar mais uma vez. Só mais uma. E depois mais outra. Porque nenhum de nós queria, suponho, carregar o peso de um divórcio ainda tão jovens. Porque nenhum de nós queria, suponho, decepcionar quem nos queria bem. Porque nenhum de nós queria, suponho, desistir de um amor que sempre fez sentido.
Até que desistimos.
Nessas horas, fazem-se coisas estúpidas. Até despencar de um avião a 10 mil pés de altura parece mais prudente do que dar entrada nos papéis do divórcio. Então foi o que fizemos. Pulamos de paraquedas numa manhã ensolarada de verão em Imbituba. Algo que, estranhamente, exigia menos coragem do que pedir o divórcio. Talvez porque pensássemos que a 10 mil pés de altura, assim como a 30 mil, podíamos ter a vida perfeita.
Ou porque desistir de algo que se construiu durante tanto tempo seja uma das coisas mais difíceis. Não apenas por precisar deixar ir uma longa história e alguém que ama, mas por lidar com tudo aquilo que aquela escolha implica.
Eu não estava preparada para o que viria.
Também não estava preparada para enxergar a verdade mais cruel: as pessoas que começaram aquele relacionamento antes dos 20 já não estavam mais ali. Então, quem eram aqueles que, àquela altura, se olhavam nos olhos e faziam promessas que não conseguiriam cumprir?
Nos filmes, as rupturas são simples. Acontecem num dia e, no outro, um dos dois já está longe de vista. Na vida real, acontecem devagar. Decide-se romper. E então pergunta-se: será que não há mesmo alternativa? E tenta-se de novo.
Quando, finalmente, decide-se, as coisas complicam. Nenhum dos dois tem para onde ir. Então, vivem sob o mesmo teto por um tempo, caso a separação seja relativamente amigável, como foi o nosso caso. Ambos acreditam que aquilo vai funcionar. É uma decisão que parece fazer sentido. Por que não funcionaria?
E então, as frustrações acumuladas atacam de forma que é quase impossível permanecer no mesmo cômodo. Quando as coisas abrandam, vocês se olham em silêncio e choram juntos, num misto de sentimentos que só vocês conseguem compreender. Num luto por tudo aquilo que foi perdido, mas ainda está ali ao nosso alcance.
Quando a decisão está, de fato, tomada, chega a hora de anunciar a má notícia. De repente, já não são mais vocês dois. É você, aquele que costumava ser seu par, e todos os outros que estão, de alguma forma, envolvidos nesse relacionamento que já não existe mais. Vocês e aqueles que não estão envolvidos o bastante para entrar na divisão de bens, mas o suficiente para sentirem-se no direito de tentar solucionar, com um conselho de amigo, aquilo que vocês tentaram durante um ano inteiro solucionar, sem sucesso.
Os “amigos”, me dei conta, querem consertar seu relacionamento para se assegurar de que há esperança, caso o mesmo aconteça com eles. Perguntam por que terminou, não por genuíno interesse, mas para tentar evitar o próprio fim de ser tão catastrófico quanto o seu. Os “amigos”, aqueles de mesa de bar, são os que mais julgam quando tudo acaba. É nessas horas que você entende quem te ama de verdade. Sem julgamentos.
É possível contá-los nos dedos de uma só mão.
Lembro com ternura do dia em que contei ao meu irmão, a primeira pessoa que soube do divórcio. Entrei no Palio branco e dirigi até Florianópolis com pressa. Uma viagem de quase três horas que fiz em menos tempo.
O encontrei para o almoço no centro da cidade. Ele devia suspeitar de algo — eu nunca fazia isso. Dirigir até Florianópolis em um dia comum para almoçar. Mas ele conteve a curiosidade até eu largar o prato mais indigesto daquela tarde, em meio a uma porção de sushi: “Estou me separando”, eu disse. Se ficou surpreso, não demonstrou. Apenas me abraçou, e eu chorei.
Lembro de ter dito — ou pensado — que entre nós dois, não imaginava que seria eu a me separar. Não porque o casamento dele não estivesse bem, mas porque eu era a certinha e ele o porra-louca.
Terminamos de comer e ele me levou para passear de patinete elétrico pela beira-mar. Ele me acolheu. Me fez sentir certa, mesmo em meio a todo o medo e incerteza que me cercavam. Naquelas horas que passamos juntos, eu era apenas a sua irmãzinha. Aquela de quem ele sempre cuidou e entreteve quando nossos pais nos deixavam em casa sozinhos enquanto iam trabalhar.
Lembro — mas gostaria de esquecer — do dia em que sentamos à mesa com meus pais. Tenho certeza de que esperavam tudo, menos aquilo.
Me recordo de cada detalhe: das expressões de surpresa e espanto. Dos “por quê?” repetidos, vez após outra, com insistência. E, a cada nova pergunta, a resposta seguia a mesma: nós também não sabíamos o motivo. O que conseguíamos dizer era que acabou. Que nos afastamos. Que já não éramos mais um casal. Que haviam tantas coisas impossíveis de ser nomeadas.
Ainda nos amávamos, mas aquilo não parecia ser o suficiente para nos manter unidos. E certamente, não iria ajudar a justificar aquele rompimento antes do “até que a morte vos separe.”
Nunca vou esquecer uma das imagens mais tristes: meu pai com o rosto sobre as mãos, como quem se pergunta “o que foi que fiz de errado?” Nunca me esquecerei, especialmente, de como me senti naquele momento: eu não era mais a boa menina. Eu desapontei todo mundo. Eu era a causa daquele sofrimento.
Mas era o que precisava ser feito.
Só que aquele era o meu limite.
Não me orgulho de dizer que não tive coragem de contar sobre o divórcio para muitas pessoas, e encarreguei meus pais da tarefa. Hoje, percebo o peso que coloquei sobre eles. Incumbi-os de uma responsabilidade que não era deles, sob algo que não tive coragem de fazer.
Foi minha mãe quem contou à minha avó. E à maioria dos meus tios. Foram meus pais que lidaram com a venda do nosso apartamento, eletrodomésticos e do carro, enquanto embarcávamos naquele avião rumo à Tel Aviv naquela que seria nossa última viagem juntos. Eles que, em meio à própria tristeza e frustração, no luto de uma relação que também era deles, tiveram que resolver os problemas que eu não tive maturidade para enfrentar.
Eles fizeram isso porque, em meio ao caos e às incertezas de uma vida que havia se desintegrado, decidi fugir de todos os meus problemas. Eu não conseguia lidar com aquilo tudo. Encarar todas aquelas pessoas. Responder a todos os questionamentos. Eu precisava desaparecer. Ou talvez começar do zero. E sem saber escolher, fiz os dois: decidi viajar. Sozinha.
Eu só não imaginava que meus problemas seguiriam comigo para os próximos destinos.
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Quem escreve
Oi, meu nome é Laís. Sou escritora independente e fotógrafa, uma artista em constante transformação. Venho de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina e hoje vivo em Portugal. Já fui nômade digital e sigo apaixonada por explorar o mundo — de fora e de dentro. Escrevo desde que me entendo por gente, não porque gosto, mas porque preciso: sem palavras, me perco de mim e do que me cerca. Escrevo sobre os desencaixes, as transformações, e a busca por si. Meus textos falam sobre a coragem, pertencimento, liberdade e do movimento inevitável de se tornar quem se é. Atualmente, além de publicar a newsletter Além da Linha aqui no Substack, também escrevo meu segundo livro (ainda sem título) que você pode ler por aqui.




O que mais me marcou foi essa dualidade entre liberdade e responsabilidade: viajar, ver o mundo, experimentar a vida ao máximo… e, ao mesmo tempo, perceber que a vida real não perdoa o silêncio nem as emoções não resolvidas. O contraste entre os momentos quase cinematográficos pulando de avião, assistindo Friends juntos e o peso do afastamento interno é muito humano, muito real.
Admiro também a coragem de expor vulnerabilidade sem dramatizar excessivamente, mostrando que decisões difíceis, mesmo quando dolorosas, são parte do crescimento.
A narrativa tem ritmo de diário íntimo, mas com a densidade de um romance filosófico: cada detalhe, cada lembrança, cada silêncio carrega significado.
Estou sem palavras, então vou comentar com emojis
🥲🥲🥲🥲🥲💔💔💔💔💔🥺🥺🥺🥺🥺🫶🏻🫶🏻🫶🏻🫶🏻🫶🏻😭😭😭😭😭