sobre ser deixada
um ensaio sobre relacionamentos que acabam apesar do amor
Quando eu leio algo como “meu marido me deixou”, logo imagino um homem saindo pela porta de casa para nunca mais voltar. Talvez por isso ou por orgulho, não consigo dizer que “meu marido me deixou”. Ele não me deixou.
Nós sentamos frente a frente na sala do nosso apartamento temporário em Ericeira e ele me disse que talvez não devêssemos alugar um apartamento juntos em Lisboa. Eu lembro do frio que percorreu todo o meu corpo naquele momento e de como eu havia me sentido inquieta mais cedo.
Ele mal havia falado comigo naquele dia. Eu parecia invisível naquele apartamento pequeno demais para que não notasse que ele me ignorava. Não era a primeira vez que sentia isso.
Naquele dia, ele saiu de casa duas vezes sem me dizer para onde ia e, quando voltou, eu saí porque não aguentava mais ficar numa casa com outra pessoa como se estivesse sozinha. Quando voltei, tentei agir com normalidade, parei na porta e perguntei se ele queria caminhar até a praia. Ele disse que sim, mas me chamou para sentar. Me acomodei no assento em frente a ele na sala de estar, e ele disse “Talvez não devessemos alugar um apartamento juntos em Lisboa.”
Talvez não devessemos alugar um apartamento juntos em Lisboa.
Eu tentei entender, fiz perguntas. Ele estava terminando comigo? Não é que eu estivesse totalmente despreparada. Ele já havia me falado algo sobre termos nos afastado meses atrás. Mas eu havia jurado que fazer esportes juntos, sair para ir ao cinema, caminhar na beira do rio, ler juntos deitados no sofá, viajar para os Alpes Franceses e depois passar dois meses com minha família no Brasil tivessem resolvido.
Mas no dia seguinte à nossa aterrissagem no Porto, de volta do país tropical, ele voltou a agir como se eu tivesse uma doença infecciosa. Se afastou, não me olhava. Me deixava. Quando perguntei, ele confirmou que sua dúvida com relação a nós persistia. Naquele momento entendi que ele só havia me feito a gentileza de esperar até que eu estivesse de volta em Portugal completamente sozinha e desamparada para me contar.
As semanas que vieram depois de nosso regresso não foram cheias de arco-íris e borboletas. Ouvi-lo dizer que achava que não devíamos nos mudar para o mesmo apartamento em Lisboa foi a queda do último dominó.
Mas sobre me deixar, ele não me deixou. Não de fato. Sugeriu depois de alguma conversa que tentássemos morar em casas separadas e “víssemos como as coisas iriam ficar”. Em outros tempos, aquilo talvez me parecesse minimamente plausível, porque queria ser a mulher madura: a que a acomoda, a que entende a que dá espaço. Mas naquele ponto a proposta me pareceu um absurdo.
Não é que não tenha tentado ser a que deixa o outro livre. De fato fui. Quando ele decidiu ir comprar um carro no exterior e quis prolongar a viagem eu disse: “Claro, tome o tempo que precisar.” Quando ele estava em dúvida se iria para Dubai para uma conferência eu disse: “Você tem que ir, vai ser divertido.” Quando ele falou em revistar Viena e ficar lá por um mês para “se redescobrir” eu disse: “Claro, se isso é importante para você, vá. Eu fico aqui se você precisa desse tempo sozinho.”
Dei tanto espaço, mas o tanto de espaço que dei não foi suficiente. O espaço não serviu de nada além de nos afastar. Foi aí que percebi que nenhum espaço do mundo resolveria o problema de que ele estava em um relacionamento de seis anos desejando estar só.
Dias antes, tivemos uma discussão acalorada no carro que começou por algo bobo e terminou com uma frase quase gritada saída aos trancos da minha garganta “Se eu te der mais espaço eu vou deixar de existir.”
Se eu te der mais espaço eu vou deixar de existir.
Se eu lhe desse mais espaço, se alugássemos os apartamentos separados e vivêssemos como namorados, se nos víssemos às vezes nos fins de semana, se ele dormisse na casa dele e eu na minha, se às vezes ele me convidasse para ir ao cinema ou almoçar juntos, o relacionamento talvez pudesse sobreviver algumas semanas ou meses mais. Mas eu, eu deixaria de existir.
Viveria para ele, tentando garantir que ele ainda desejasse estar comigo depois de nos afastarmos por quilômetros e mais quilômetros. Desejando que ele lembrasse daqueles dias em que dizia “Eu não sei o que seria da minha vida sem você.” Pedindo migalhas, uma mensagem que pudesse ser interpretada como carinho, uma ligação no fim do dia, ou observando a falta de um gesto afetuoso, o soltar de uma mão enquanto caminhávamos lado a lado. Passaria horas dos meus dias lendo significado nos mínimos gestos e especialmente na falta deles. Tudo que sobraria de mim seria aquela que eu achava que ele gostaria de ter.
Então, quem disse que isso não funcionaria fui eu. Mas por que tenho a sensação de que foi ele quem me deixou se fui eu quem fiz as malas apressadamente, colocando desde biquinis até blusas de lã lá dentro enquanto chorava, tomando mais tempo do que precisaria para empacotar tudo porque não conseguia respirar? Se fui eu quem tive que pedir “me leva até Lisboa para a casa da Yasmin?”. Se fui eu quem caiu aos prantos ao abraçar o marido de minha amiga na entrada do prédio, um homem que antes só havia visto uma vez e mal conhecia.
No fim, mesmo que eu tenha dito as palavras que marcaram o fim, mesmo que eu tenha decidido que o que ele propunha não servia para mim, o primeiro passo foi ele quem deu.
PS: Parei de enviar essas newsletters há um bom tempo — por razões que esse texto explica. Mas, hoje, depois de quase seis meses dentro de um furacão, senti vontade de colocar a cabecinha para fora de novo e voltar, aos poucos. Então, se você me leu até aqui, obrigada! Obrigada por ainda estar aqui. Ah e aproveita e deixa um comentário aqui. Vou adorar receber um abraço de “bem-vinda de volta” de vocês. Estava com saudades, mas não consegui voltar antes. Espero que entendam <3
Quem escreve
Oi, meu nome é Laís. Sou escritora independente e fotógrafa, uma artista em constante transformação. Venho de uma pequena cidade do interior de Santa Catarina e hoje vivo em Portugal. Já fui nômade digital e sigo apaixonada por explorar o mundo — de fora e de dentro. Escrevo desde que me entendo por gente, não porque gosto, mas porque preciso. Escrevo sobre desencaixes, transformações, e a busca por si. Meus textos falam sobre a coragem, pertencimento, liberdade e do movimento inevitável de se tornar quem se é. Atualmente, além de publicar a newsletter Além da Linha aqui no Substack, também escrevo meu segundo livro “Um ano para desaparecer” que você pode ler por aqui.




Lais, bem-vinda de volta! Seu texto me lembrou meus últimos dias de casamento, quando perguntei a ele: "você ainda me ama?", e ele me respondeu: "não sei". Comecei a desabar ali, nessa frase. Acho que "Talvez não devessemos alugar um apartamento juntos em Lisboa" resumiu o que você já sentia que poderia acontecer, talvez por isso tenha mexido tanto contigo... Mas uma coisa que noto: os homens, eles raramente terminam. Eles têm essa dificuldade de nos dizer que não nos querem mais, então se distanciam. Enquanto a gente fica tentando achar um jeito de salvar, eles vão se retirando do relacionamento, até que no final a gente é quem não aguenta mais. A gente é quem faz as malas, ainda se questionando se era pra fazer isso mesmo. Espero do fundo do coração que você fique bem!
Receba meu abraço e também o meu sorriso. Sorri ao ver seu e-mail chegar, mas logo entendi que a leitura não seria... qualquer leitura. Seria uma espécie de releitura. Sem entrar em muitos detalhes, só quero dizer que entendi cada linha e me vi nelas também. Hoje, não me dói mais lembrar, mas entendo que é um processo, vai de cada pessoa... mas uma alma sensível entende a outra. Por algumas vezes me perguntei se você estaria bem, se não viria pra Floripa, se a gente não ia se ver. Tudo certo. Uma hora a gente vai e eu espero te abraçar com o mesmo carinho que te escrevo. Que você receba muito amor onde estiver 💜